Irmã Sophie Aves
UMA HISTÓRIA A DUAS MÃOS


Há histórias que só se podem escrever a duas mãos: a mão de Deus e a nossa.

A minha história vocacional começa com um convite: um convite que viria a transformar a minha vida. Perguntaram-me se queria entrar para o grupo de jovens e tocar guitarra no coro da paróquia. Nesse tempo, as minhas prioridades não passavam por Deus, muito pelo contrário, fugiam d’Ele. Os amigos, a praia, o futsal e o carnaval preenchiam o meu, muito ocupado, tempo. 

Na altura, caminhava à beira-mar com um Desconhecido. Era como se Ele viesse ao meu lado mas, eu afastava-me... tinha medo!

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"Era como se Ele viesse ao meu lado
mas, eu afastava-me...
tinha medo!
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Ir ao grupo de jovens era muito bom e, no entanto, interior e exteriormente era tudo igual, nada mudava em mim. Se tivesse de dizer a alguém quem eu era, não o saberia fazer. Agia de acordo com os vários ambientes que frequentava e adotava diferentes comportamentos, de tal forma, que me via a viver numa constante duplicidade, numa vida sem sentido e completamente vazia. Era precisamente nestes momentos de confusão interior, que o Desconhecido se aproximava de mim e tentava falar-me ou indicar-me um novo caminho à beira-mar. No entanto, era eu quem controlava a minha vida, e, ceder a algo que eu não conhecia, era impensável.

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"... o Desconhecido se
aproximava de mim
tentava falar-me
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O grupo de jovens e as noites de oração tornavam-se cada vez mais essenciais; o vazio que sentia quando saía à noite, o gosto pelas festas e a atração por aquilo que se diz "liberdade" levou-me quase ao abismo... mas em simultâneo e misteriosamente, começava a sentir-me preenchida e não sabia como nem porquê! Até que, finalmente descobri quem era o Desconhecido que me acompanhava à beira-mar: seu nome é Jesus! Todavia, pouco tinha mudado em mim. Quem comandava o caminho, ainda era eu.

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"...finalmente descobri
quem era o Desconhecido...
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Entretanto, chega a altura em que o grupo de jovens decide ir fazer um retiro ao Gerês. Num desses dias, alguém, achando-me bastante triste, pede a uma religiosa para vir falar comigo. Estávamos a falar sobre o meu desejo de ir para a marinha, quando me pergunta: "já alguma vez pensaste em ser freira?" Pergunta à qual tentei responder o mais educadamente possível, mas, para mim, ser freira estava completamente fora de questão. Nunca o estilo de vida delas me tinha atraído. "Eu, Irmã? Nem pense!" Mas aquela pergunta ficou encerrada a sete chaves na minha consciência durante três anos. Contudo, durante este período, o meu lema era não ter limites e aproveitar a vida ao máximo. Mesmo assim, continuava a ir ao grupo de jovens e à missa todos os domingos.

Ainda não se tinha quebrado o meu espelho diante de Deus, nem tinha feito a experiência da sua Misericórdia e do seu Amor naquilo que eu era.

O meu espelho partiu-se, depois de um convite feito pelo Padre Filipe Santos, para um campo vocacional.

A este convite, primeiramente, disse-lhe que não, pois a ideia que tinha era: “Oh não! Passar dias com freiras... não, por favor!” No entanto, acabei por aceitar. Lá fui, e a pergunta que há três anos se encontrava encerrada na minha consciência, voltou a surgir. Nesses dias, andava eu inquieta com aquela pergunta, e decidi ir falar com com uma Irmã que ao ouvir a minha história, percebemos que ela pertencia á mesma congregação da irmã que conheci no Gerês.

Com pequenos sinais vêm grandes certezas...
Com ajuda de uma Irmã, fui discernindo os sinais de Deus na minha vida e que caminho seguir. A pouco e pouco percebia que Deus, me pedia algo maior, que me chamava a segui-Lo e concretamente na Aliança de Santa Maria. Desde então, comecei a deixar que Jesus me dissesse qual o caminho que Ele queria que seguíssemos à beira-mar. No entanto, as dúvidas surgiam e as tentações também e, num momento em que tudo me fazia voltar para trás decidi perguntar a Deus o que Ele realmente queria de mim. Peguei, então na Bíblia e a primeira coisa que li foi:

  • "Deixaram tudo e seguiram Jesus"
  • Lc 5, 11

Deixando tudo, deixando que fosse Ele a conduzir a minha vida, desejei eu própria dizer-lhe "Sim", numa entrega total e fiel ao Coração Imaculado de Maria, para toda a Humanidade. Depois de entrar para a Congregação, percebi que Jesus é o único que dá sentido pleno à minha vida.

Vale apena arriscar tudo por Aquele que preenche todas a exigências do nosso coração.

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Publicado em “Religiosos e religiosas do Concelho de Torres Vedras" | 2015