O terceiro dia

A história de um fillho que nunca deixou de o ser

O terceiro dia

 

 

Do alto da minha inexperiência, asseguro que a sede pareceu-me ser o que tive de mais extraordinário e terrível. Extraordinário porque reencontrei a verdade e me desiludi: eu não sou suficiente para me bastar. Terrível porque ela me fez dependente: se eu não me bastei a mim mesmo, quero saber quem basta.

Não encontrei descanso na fuga, no corte. Então, fui encontrar coragem para bater a outra porta. Sim, fui encontrar coragem, porque ela é precisa para voltar atrás e recomeçar. Abri a porta da procura e senti saudades de dar a mão ao meu pai, para correr caminhos e aprender o lugar das fontes e o lugar dos homens, o lugar da espera e só depois o lugar dos frutos.

Lágrimas: a única coisa de que fomos capazes no dia em que voltei. Do alto da minha ignorância, afirmo e atesto que a sede do filho é o que há de mais extraordinário e terrível na vida dos pais. Extraordinário, pela alegria: aquele a quem tanto amaram, e a quem tudo deram, cresceu e busca qualquer coisa que nem sabe dizer. Terrível, pela impotência: ela é o preço que pagam pela sua liberdade e, por isso, experimentam o tormento de o ver partir, às vezes enganado, sem garantia de que vai voltar ou ser feliz.

Nesse mesmo dia, enquanto comíamos, um dos meus irmãos contou-me uma história que também ele ouvira contar. A história de um pai que tinha dois filhos. Um deles, o mais novo, foi-se embora para uma terra longínqua. Ia para onde queria, fazia o que lhe apetecia, até não ter mais nada. E foi nesse momento que se lembrou do seu pai e quis ao menos ser tratado como um dos seus trabalhadores, que comiam muito melhor que ele. Pôs-se a caminho e quando vinha, ainda longe, o pai viu-o e correu ao seu encontro, enchendo-o de beijos. Depois, mandou calçar-lhe os pés, pôr-lhe um anel no dedo, deu-lhe a melhor roupa e fez-lhe uma festa.

Era a minha história. E eu quis saber mais. Então, enquanto lavávamos a loiça, fui ter com o meu irmão e pedi-lhe que me contasse como foi, depois, com aquele filho. Mas, ele encolheu os ombros, e, olhando para um crucifixo que por ali havia, disse-me que o primeiro a contar aquela história não disse mais.

Quem é o contador de histórias? E porque está assim pregado numa cruz?- perguntei. A primeira pergunta foi fácil de responder: disse-me que se chamava Jesus. A segunda foi demorada: disse-me que era uma longa história.

Mas eu tinha tempo. E vontade de saber. Então, fomo-nos sentar sobre a relva verde e eu estava ali, a escutar, atento. Até ele me contar a história de uma mulher que foi ao poço. Foi porque tinha sede, contudo, encontrou um homem com mais sede ainda e uma desmedida vontade de dar a beber.

E eu senti outra vez que era a minha história. Que as palavras da mulher eram minhas e que minha era a sua sede. Que as suas perguntas eram as minhas perguntas.  Que a sua vida era a minha vida. Que Ele tinha sede de mim e que eu tinha sede da d’Ele e da água que Ele tinha para dar.

Nesse instante, só desejava deixar o cântaro como ela e seguir atrás dele como o fizeram aqueles que foram comprar alimentos. Só não sabia como, nem quando, nem onde.
 

Texto de Verónica Benedito, asm
Voz de Fausto Raínho Ferreira