O quarto dia

A história de um fillho que nunca deixou de o ser

O quarto dia

 

 

Decidi perguntar ao meu irmão como é que as pessoas seguem Jesus.
Ele devolveu-me a pergunta e eu disse-lhe o que pensava: a mãe reza o terço. O pai vai à missa e tira o chapéu, no campo.

Ele riu-se. Sabes o que faz o pai quando os sinos tocam ao meio dia? Ele interrompe a pressa do seu labor, tira o chapéu e diz baixinho: Meu Senhor, que és maior que o meu trabalho. E sabes o que diz a mãe, quando pega no terço? Ó Senhora, ensina-me a ser filha para que eu aprenda a ser mãe.

Apeteceu-me perguntar a toda a gente o que diziam baixinho! O que dizem os pais, à noite, sentados na sala? O que diz o meu irmão quando passa pela porta da igreja e faz o sinal da cruz? O que diz o padre quando se ajoelha diante do sacrário? O que é que o frei sussurra enquanto cava a terra? E porque é que ele olha tantas vezes para o Céu? 

O meu irmão acrescentou que havia muitas formas de O seguir e que nenhuma era a mais certa.
Confesso que essa parte não foi lá grande ajuda... Onde estão as respostas fáceis? O que é feito das decisões imediatas e sempre acertadas? Parecia-me tão fácil quando o meu pai chegava de manhã e dizia: hoje vamos colher as maçãs em vez de arar. Parecia-me tão fácil a sua voz segura. Porque é que a minha treme?

Quero perguntar como devo seguir Jesus, mas não o faço. Tenho vergonha e medo de perguntar porque verbalizar é já comprometer-me e eu não sei quais são as cláusulas do contrato.

Parecia-me tão fácil aquela firmeza do meu pai... mas havia sempre qualquer coisa nos seus olhos cansados. Talvez uma vigília, não sei se um medo.

Subi a um pequeno monte. O monte que o meu avô subia ao cair da tarde. Ele ficava, como que suspenso, naquele lugar alto, a olhar demoradamente o campo e a cidade. Suficientemente perto para não esquecer quem era. Suficientemente longe para ganhar a distância justa da realidade.
 

Foi ali, naquele monte, que ganhei o desassombro, ou pelo menos, o desejo dele. A distância lembrou-me que sou filho. Ela mostrou-me que preciso de alguém com quem aprender a escutar a voz do Alto e a minha voz.

Fui procurar de novo o meu irmão: ele já tinha ajudado muitos a fazê-lo. Era experiente e sensato.
Marcávamos um dia e uma hora. Ele perguntava-me pela minha sede e desejávamos perceber de onde vinha e para onde me levava. Contei-lhe o que andava a dizer baixinho: agora que te tenho, onde me queres, Senhor? Onde queres que eu seja pomar? Onde me queres no lugar dos homens?

Foram vários os dias e as horas marcadas: as conversas em que avançámos, as que não concluímos nada. As conversas em que eu era todo coragem e as que não encontrava razões de a ter. Às vezes havia respostas, outras vezes acabávamos com mais perguntas. Numas ríamos, noutras chorávamos. Mas em todas elas estava o meu desejo de ouvir e responder e o seu desejo de ajudar a ouvir e de ajudar a responder.
Hoje foi a última conversa. Ao despedirmo-nos ele disse: agora que O tens e sabes onde te quer; agora que O tens e queres servir, guarda a paz que te deu e não olhes para trás.

 

Texto de Verónica Benedito, asm
Voz de Fausto Raínho Ferreira