III Domingo do Advento

Vestia-se e alimentava-se da confiança em Deus. Tinha consciência de que era mero instrumento,
apenas a voz. Não se vê nele poder, riqueza ou autoridade. Não procurou protagonismo; não quis fãs,
nem seguidores. Fugiu do primeiro lugar. Eis alguns traços que desenham o rosto do homem que abre
o Evangelho de hoje! O homem-do-deserto, que abraçou alegremente o essencial: João Batista. 

Era o percursor, aquele que ia à frente a abrir o caminho para a passagem do Messias. E fá-lo até que Ele
Se começa a revelar, na Sua vida pública. Quando Jesus surge, João, que sempre apontou para AQUELE
QUE ERA, passa a ocupar o lugar da retaguarda. Talvez seja por isso que Lhe envia os seus discípulos; para
que não seja já pelas suas palavras que acreditam, mas para que o próprio Jesus Se dê a conhecer.

Abrir o caminho para Jesus, apresentá-Lo aos homens, levar a humanidade à conversão: os gestos de João
Batista são, simultaneamente, o luminoso pano de fundo da Mensagem de Fátima. 

Na Senhora, contemplamos um Coração-Caminho-para-Deus, que abre os caminhos das nossas almas,
endireita as nossas veredas e une as nossas divisões para a passagem do Senhor. No Francisco, encontramos
o menino-do-essencial. Aquele que se retirava para habitar a intimidade do deserto – lugar onde tudo vem de
Deus e só Dele se pode esperar. A Jacinta, por sua vez, espelha, de forma límpida, o desejo insaciável da conversão
da humanidade, os seus pobres pecadores. E, na Lúcia, vemos a mulher que viveu com a consciência clara de que
era apenas a voz e que, em tudo, procurou diminuir para que o seu Senhor crescesse; não tivesse ela cantado com
a sua vida: "eu não quero que de mim fique memória". 

Fátima transporta-nos, ainda, para a sempre surpreendente ação de Deus, que irrompe melodiosamente a nossa
surdez, sem que a Sua voz se imponha; ilumina as nossas cegueiras; cura as feridas das nossas lepras; ressuscita
as nossas mortes.

Os pastorinhos dão rosto aos pobres a quem foi anunciada a boa nova. Eles não eram meninos-cana: ocos, frágeis,
fáceis de agitar e de quebrar. Mas, fortes e invencíveis na relação de intimidade e confiança em Deus. Tinham
experimentado o mesmo lume que João tinha no peito!

Entre o Antigo e o Novo Testamento, com João Batista, vemos como Deus faz graça. Não deixa de ser belo que a
narrativa de Fátima tenha como últimas palavras GRAÇA e MISERICÓRDIA. É que, na Sua infinita misericórdia,
naquilo que, em nós, é Antigo ou Novo, Deus continua a fazer graça

Não será este o nosso maior motivo de alegria?

Madalena Silva, asm